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30 de novembro de 2012

Cozy Classics

* Publicado originalmente no blog The Studio.

Se um clássico é capaz de encantar várias gerações, imagine quando ele se torna "aconchegante". Sim, essa é a intenção do projeto My Cozy Classics, que transforma clássicos da literatura mundial em simpáticos bonequinhos de feltro.  



Tanta fofura é para agradar um público alvo todo especial: bebês que estão aprendendo suas primeiras palavras. Os autores dos livros reescrevem as histórias com um vocabulário familiar para os pequeninos, associando expressões como "friends" ou "sisters" a uma destas adoráveis figuras. 



Não somos toddlers, mas adoramos os bonequinhos. Pena que não sejam colecionáveis. They are adorable!  



13 de junho de 2012

Trocando livros pelo SKOOB


Em 2009 eu conheci o Skoob, por intermédio da minha amiga bookaholic Deh. Esse site de nome engraçado ["books" ao contrário] nada mais é que uma rede social brasileira voltada para pessoas que amam ler, onde você diz quais os livros que está lendo, os que já leu e aqueles que ainda vai ler. Lá você encontra resenhas e pode também publicar a sua própria opinião, além de ver o que os seus amigos curtem. Dá pra interagir bastante com os outros usuários, principalmente através dos grupos. 

Macanudo, do Liniers
Ok, mas e daí que por muito tempo eu deixei meu perfil largado e quase não atualizava minha estante. Isso só mudou há cerca de um ano, quando eu descobri que o Skoob é O PARAÍSO DA TROCA DE LIVROS. Sério, se você é dessas pessoas que não se apegam a uma estante lotada e prefere ver o livro passar por várias mãos devoradoras de histórias, então vai adorar o Skoob. Eu já havia feito duas trocas na forma livro x livro [você envia um livro para alguém e recebe outro da mesma pessoa], e ambas foram tranquilas. Eu me desapeguei de livros que não iam me fazer a falta e ganhei outros que estava doida pra ler. E tudo por um custo baixíssimo: o envio de um livro de 300g para a região sudeste, com registro módico, fica por cerca de R$5,00.
Além do método tradicional, agora eles criaram o Plus, que é um sistema que facilita demais o processo de trocas através de um "banco de créditos". Primeiro você começa zerado de créditos, com um selo amarelo. Para sair do vermelho, você cadastra o livro que quer trocar no sistema e espera alguém fazer uma solicitação de envio. Daí você aceita e manda pro endereço da pessoa, que ao receber a encomenda já te passa o(s) crédito(s). Agora sim você, feliz e saltitante, poderá pesquisar o seu livro desejado e exercer o papel de "solicitante".
O bom desses sistema é que você não precisa mais procurar alguém que tenha o livro que você deseja E que queira um item da sua estante. A recíproca não precisa mais ser verdadeira, entende? Se não entendeu, é só entra no grupo Eu sou Plus o pessoal ensina direitinho o que é e como funciona o sistema.


Enriqueta e seu gato Fellini, do Liniers
Outra forma de botar seu livro para correr o mundo é participando do grupo Livro Viajante, onde você cria um tópico com seu livro e outras pessoas se "inscrevem" para recebê-lo. Essa pessoa fica com o livro por X dias, depois envia de volta pro dono ou para o próximo participante. Existem algumas regras gerais para as trocas, mas você pode acrescentar alguns requisitos no seu tópico. Se você é desconfiado, vale a pena buscar referências dos solicitantes na lista negra do grupo. Sim, até nisso eles pensaram! Eu achei a ideia do livro viajante muito bacana, mas ainda não testei. Se alguém já participou, vai lá no meu perfil e me conta como foi. ;) 


Estantes divertida do Grant Snider

24 de maio de 2012

Quero ler: Oito Noites Brancas



"Não me ocorreu que as pessoas que irrompem na nossa vida podem com a mesma facilidade irromper para fora dela quando estão terminadas, que alguém que entra num auditório segundos antes de a música começar pode de repente levantar-se e voltar a perturbar todos ao perceber que está sentado na fila errada e não está interessado em esperar até ao intervalo."

Sabe quando você lê o trecho solto de um livro e, antes mesmo de saber do que se trata a história, já fica morrendo de vontade de ler o resto? Pois é, eu sou dessas. E esse foi o meu caso com o romance Oito Noites Brancas (Eight White Nights), do autor norte-americano André Aciman. Essa é a história de uma paixão "urbana", quando um cara conhece uma mulher fascinante chamada Clara, em meio a uma festa na zona chique de Manhattan. Nos sete dias seguintes eles se encontram todas as noites no cinema e vão se aproximando em meio a descobertas, inseguranças, esperanças e diálogos, até que surge uma paixão arrebatadora e... enfim, você pode ler a sinopse inteira aqui na Wook ou ir direto para a resenha do NY Times
Eu fiquei muito curiosa, mas acho que ainda vou demorar para descobrir se o livro é bom mesmo. É que infelizmente ele só tem edição traduzida por uma editora em Portugal - e o frete é bem caro. Mas pra matar (ou atiçar ainda mais) a curiosidade, na página da Amazon dá para ler as primeiras páginas da edição original do livro em inglês. 

"I don't always think I'm a good person. But telling people this only makes them want to prove me wrong, and the more they try to prove me wrong, the more I want to push them away, but the more I push them away, the guiltier I get, the nicer I become, the more they think I've changed. It never lasts. In the end I learn to hate both myself and them for things that should have lasted no longer than a few hours." She reflected on this. "Maybe a few nights. Inky and I could have stayed friends.". "This is the most twisted thing you've said so far". "What, that being kind to people makes me want to hurt them? Or that hurting them makes me want to be kind?"

12 de março de 2012

3 em 1 [Sobre o Adeus]

[para rir ou chorar] 
Como é sofrido o adeus, né gente? Quem sabe disso é o Gomez.


[para aumentar o som]
Mas pode ficar um mais fácil com uma boa trilha sonora: "Adieu", da fofa Coeur de Pirate.


[para declamar ao vento]
Dou adeus com "Farewell" de Pablo Neruda, traduzido como "Crepusculário".


Desde o fundo de ti, e ajoelhado 
um menino triste, como eu, nos olha. 

Pela vida que arderá nas suas veias 
teriam que amarrar-se nossas vidas. 

Por essas mãos, filhas das tuas, 
teriam que matar as minhas mãos. 

Pelos seus olhos abertos na terra 
verei nos teus lágrimas um dia. 



Eu não o quero, Amada. 

Para que nada nos amarre 
que nada nos una. 

Nem a palavra que perfumou tua boca 
nem o que disseram as palavras. 

Nem a festa de amor que não tivemos, 
nem os soluços junto à janela. 



(Amo o amor dos marinheiros 
que beijam e partem. 

Deixam uma promessa. 
Não voltam nunca mais. 

Em cada porto uma mulher espera: 
os marinheiros beijam e partem. 

Uma noite deitam-se com a morte 
no leito do mar. 



Amo o amor que se reparte 
em beijos, leite e pão. 

Amor que pode ser eterno 
ou que pode ser fugaz. 

Amor que quer libertar-se 
para voltar a amar. 

Amor divinizado que se chega 
amor divinizado que se vai.) 



Já não se encantarão meus olhos nos teus, 
já não abrandará junto a ti minha dor. 

Mas onde quer que vá levarei o teu rosto 
e onde quer que vás levarás a minha dor. 

Fui teu, foste minha. Que mais? Juntos demos 
uma volta no caminho por onde o amor passou. 

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te amar, 
do que colher no teu jardim o que eu semeei. 

Vou-me embora. Estou triste: estou sempre triste. 
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou. 

... Do teu coração diz-me adeus um menino. 
E eu digo-lhe adeus.

2 de fevereiro de 2012

"there’s a bluebird in my heart that wants to get out"

Já faz um tempinho que eu vi essa animação rolando na web e até tinha esquecido que ela estava salva nos meus favoritos do Youtube. Até ontem, quando eu resolvi compartilhar. Ela foi feita pela desenhista/animadora Monika Umba e é baseada no poema homônimo de Charles Bukowski. O resultado ficou lindo, fazendo juz a obra escrita - que eu colei ali embaixo pra quem ainda não conhecia. Espero que vocês gostem tanto quanto eu. :)


there’s a bluebird in my heart that

wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that

wants to get out
but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.
then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?


~ Poema: "Bluebird", de Charles Bukowski.
~ Animação e animação: Monika Umba - estudante da Cambridge School of Art.

~ Edição: Chano Sánchez-Gomez

10 de dezembro de 2011

"Obrigado por insistir..."



Até o mais seguro dos homens e a mais confiante das mulheres já passaram por um momento de hesitação, por dúvidas enormes e dúvidas mirins, que talvez nem merecessem ser chamadas de dúvidas, de tão pequenas. Vacilos, seria melhor dizer. Devo ir a este jantar, mesmo sabendo que a dona da casa não me conhece bem? Será que tiro o dinheiro do banco e invisto nesta loucura? Devo mandar um e-mail pedindo desculpas pela minha negligência? Nesta hora, precisamos de um empurrãozinho. E é aos empurradores que dedico esta crônica, a todos aqueles que testemunham os titubeios alheios e dizem: vá em frente!


"Obrigada por insistir para que eu pintasse, que eu escrevesse, que eu atuasse, obrigada por perceber em mim um talento que minha autocrítica jamais permitiria que se desenvolvesse.”

“Obrigada por insistir para que eu fosse visitar meu pai no hospital, eu não me perdoaria se não o tivesse visto e falado com ele uma última vez, eu não teria ido se continuasse sendo regida apenas pela minha teimosia e orgulho.”

“Obrigada por insistir para que eu conhecesse Veneza, do contrário eu ficaria para sempre fugindo de lugares turísticos e me considerando muito esperta, e com isso teria deixado de conhecer a cidade mais surreal e encantadora que meus olhos já viram.”

“Obrigada por insistir para que eu fizesse o exame, para que eu não fosse covarde diante das minhas fragilidades, só assim pude descobrir o que trago no corpo para tratá-lo a tempo. Não fosse por você, eu teria deixado este caroço crescer no meu pescoço e me engolir com medo e tudo.”

“Obrigada por insistir para eu voltar pra você, para eu deixar de ser adolescente e aceitar uma vida a dois, uma família, uma serenidade que eu não suspeitava. Eu não sabia que amava tanto você e que havia lhe dado boas pistas sobre isso, como é que você soube antes de mim?”

“Obrigada por insistir para que eu deixasse você, para que eu fosse seguir minha vida, obrigada pela sua confiança de que seríamos melhores amigos do que amantes, eu estava presa a uma condição social que eu pensava que me favorecia, mas nada me favorece mais do que esta liberdade para a qual você, que me conhece melhor do que eu mesma, apresentou-me como saída.”

“Obrigada por insistir para que eu não fosse àquela festa, eu não teria agüentado ver os dois juntos, eu não teria aturado, eu não evitaria outro escândalo, obrigada por ficar segurando minha mão e ter trancado minha porta.”

“Obrigada por insistir para eu cortar o cabelo, obrigada por insistir para eu dançar com você, obrigada por insistir para eu voltar a estudar, obrigada por insistir para eu não tirar o bebê, obrigada por insistir para eu fazer aquele teste, obrigada por insistir para eu me tratar.”

Em tempos em que quase ninguém se olha nos olhos, em que a maioria das pessoas pouco se interessa pelo que não lhe diz respeito, só mesmo agradecendo àqueles que percebem nossas descrenças, indecisões, suspeitas, tudo o que nos paralisa, e gastam um pouco da sua energia conosco, insistindo.

~ "Obrigado por Insistir", de Martha Medeiros.
~ Imagem: http://coisasdeyaya.blogspot.com

13 de novembro de 2011

"Devagar, o tempo transforma tudo em tempo..."



Coitado desse blog, totalmente abandonado às moscas. E o pior que eu realmente não tenho nenhuma desculpa senão pura preguiça. Shame on me!  Um pouco de poesia para tirar a poeira. *assopra*
















Devagar, o tempo transforma tudo em tempo. 
O ódio transforma-se em tempo, o amor 
transforma-se em tempo, a dor transforma-se 
em tempo. 


Os assuntos que julgámos mais profundos, 
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, 
transformam-se devagar em tempo. 


Por si só, o tempo não é nada. 
A idade de nada é nada. 
A eternidade não existe. 
No entanto, a eternidade existe. 


Os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos. 
Os instantes do teu sorriso eram eternos. 
Os instantes do teu corpo de luz eram eternos. 


Foste eterna até ao fim. 


~ "Explicação da Eternidade", José Luís Peixoto [in "A Casa, A Escuridão"]
~ Imagem: http://peaceloveandtricia.deviantart.com

16 de abril de 2011

"Teu é o meu amor e, teu uso dele, o seu tesouro."

O bom de namorar é poder sempre compartilhar e descobrir coisas novas um com o outro, não acham? Uma das coisas muitas coisas legais que Stivny me mostrou foi esse vídeo, que mistura teatro, poesia e música de uma forma lindíssima. [Essa maquiagem não é linda de morrer?] E agora eu compartilho essa beleza em forma de musical com vocês.
Um bom dia shakespeareano para vocês! :)



A woman's face with nature's own hand painted,
Hast thou, the master mistress of my passion;
A woman's gentle heart, but not acquainted
With shifting change, as is false women's fashion:
An eye more bright than theirs, less false in rolling,
Gilding the object whereupon it gazeth;
A man in hue all hues in his controlling,
Which steals men's eyes and women's souls amazeth.
And for a woman wert thou first created;
Till Nature, as she wrought thee, fell a-doting,
And by addition me of thee defeated,
By adding one thing to my purpose nothing.
But since she prick'd thee out for women's pleasure,
Mine be thy love and thy love's use their treasure.

Tens a face de mulher pintada pelas mãos da Natureza,
Senhor e dona de minha paixão;
O coração gentil de mulher, mas avesso
Às rápidas mudanças, como a falsa moda que passa;
Um olhar mais brilhante, e mais autêntico,
A imantar tudo que contempla;
Uma cor masculina, a guardar todos os seus tons,
Rouba a atenção dos homens, e causa espanto às mulheres.
Se como mulher tivesses sido primeiro criado;
Até a Natureza, ao te conceber, caiu-lhe o queixo,
E eu, também, caído a teus pés,
Nada mais acrescento ao meu propósito.
Mas, ao te escolher para o prazer mais puro,
Teu é o meu amor e, teu uso dele, o seu tesouro.


"Shakespeare's Sonette", por Robert Wilson and Rufus Wainwright, no Berliner Ensemble, 2009.
~ "Sonnet 20", de William Shakespeare.

13 de abril de 2011

3 em 1 [Dia do Beijo]

[para assistir]
O Primeiro Beijo, episódio de Confissões de Adolescente (TV Cultura/1994)
A continuação tá aqui e aqui.



[para ouvir]
Beija Eu, Marisa Monte.
Música boa para chamar seu benzinho pra perto e tascar-lhe muitos beijos.



[para ler]
O Primeiro Beijo, de Clarice Lispector.
Publicado pela primeira vez no livro Felicidade Clandestina, em 1971.


Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor: Amor com o que vem junto: ciúme.

- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?

- Ele foi simples:

- Sim, já beijei antes uma mulher:

- Quem era ela? perguntou com dor:

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer:

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir- era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor; rir, gritar; pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito .era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engolia- a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede. enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio-dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou pôr instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, espera!: Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na Cla inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.

O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.

Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se sacia!: Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificado!; o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.
Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar: A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu se!; jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...

Ele se tornara homem.

17 de outubro de 2010

"O amor acaba"

Acho que poucos autores conseguem transformar esse sentimento tão doloroso em um texto de sensibilidade e simplicidade tão lindas. Adoro!


"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba."


~ "O amor acaba", de Paulo Mendes Campos.

19 de agosto de 2010

"Sugestões para Atravessar Agosto"




Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro - e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.


Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir. Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.


Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos - ou precauções - úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia, categoria originalidade... Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo zap!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.


Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um.Pode ser Natália Lage, Antônio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún, ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.


Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques - tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informação para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas - coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo; evasão, escapismos. Assumidos, explícitos.


Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.


~ "Sugestões para Atravessar Agosto", de Caio Fernando Abreu (O Estado de São Paulo, 06/08/95)
~ Imagem: Deviantart